Como transformar questões difíceis em jornadas inspiradoras
Minha visão inspirada por Frederic Laloux
Estamos vivendo em um mundo cada vez mais caótico e confuso, com questões cada vez mais complexas e difíceis de entender. E não quero vir aqui falar, mais uma vez, do mundo VUCA e do mundo BANI. O que me ocupa é a experiência pessoal e individual das pessoas, e não o que algumas siglas e frameworks tentam resumir, mas que acabam não fazendo muito sentido no dia a dia.
Essa semana me deparei com algumas notícias bem impactantes:
O caos nos trens de São Paulo pós-privatização
A vazão das Cataratas do Iguaçu, seis vezes acima da média histórica
Meta usando IA para demitir trabalhadores com problemas de saúde
Fora a profunda corrupção e o descaso dos políticos brasileiros com os assuntos dos cidadãos. Estamos nos aproximando de uma eleição com candidatos que nos trazem zero esperança de melhora. Na realidade, a expectativa é de piora em nossas condições, independentemente de quem vença.
Diariamente, me pego pensando no que posso fazer em um mundo que, dia após dia, demonstra que ainda dá pra ficar pior do que já é. Se eu começar a falar dos ambientes de trabalho, vou precisar dedicar um texto inteirinho só pra isso.
Mas posso me ater ao tão esperado fim da escala 6x1: outro assunto que virou ativo político e que mostra que, no fundo, ninguém está preocupado com a saúde e o bem-estar do trabalhador: o objetivo é lucrar mais e ganhar eleições.
Hoje resolvi parar de procrastinar e li um ensaio que Frederic Laloux (autor de Reinventando as Organizações) escreveu para o Corporate Rebels após o “Corporate Rebels Summit” que rolou no ano passado. E ele me trouxe alguns insights que, por fim, me levaram até aqui.
Esse ensaio se inspirou em uma conversa que ele teve com 15 CEOs de empresas de destaque e traz pontos que podemos incorporar ao nosso dia a dia para fazer algo concreto nesse mundo.
Vivendo e trabalhando em um estado de dissonância cognitiva
No ambiente de trabalho, porém, há pouco espaço para questionarmos essas preocupações.
Laloux inicia seu ensaio trazendo a questão da dissonância cognitiva. O fato de, no nosso trabalho, não termos espaço para pensar nessas questões. Tudo isso acontecendo no mundo, e a gente precisa entregar e entregar. Não podemos fazer muita coisa para reverter esse cenário.
E o que vemos nas novas gerações é uma preocupação cada vez maior com o mundo, com o bem-estar e com a sociedade em que vivemos, principalmente o balanço entre vida social e trabalho.
É você ver críticas de todo lado de jovens querendo “farmar aura” e políticos preocupados em proibir encontros com esse fim. Pasmem, alegando desconhecer o que é isso porque “ele é hétero”.
Se não está entendendo nada, nesse post do instagram você pode aprender o que é Farmar Aura de uma maneira muito mais gostosa e divertida.
Mas você sabe o que pode fazer para resolver essa dissonância? Você sente que tem alguma capacidade de mudar esse mundo em que vivemos e criar um futuro melhor?
Não precisamos ter a resposta
Eu, como um curioso nato, já me pego forte com essa colocação de Laloux logo no início. Estou sempre buscando respostas, sempre buscando entendimento. Não me contento com coisas do tipo “é assim”, “foi assim que me ensinaram”, “não tem o que fazer”, “não sei por quê”.
Quem convive comigo sabe o quanto eu costumo questionar e perguntar. Mas por quê? Mas de onde saiu isso? Onde você viu isso?
Um caso curioso recente foi um amigo comemorando a nova lei, sancionada pelo presidente, que exige pelo menos 35% de cacau para que algo seja considerado chocolate, segundo a qual “finalmente teremos chocolate com gosto de chocolate”.
Em 5 minutos de pesquisa, eu pude descobrir que a lei foi proposta por um senador do Pará, maior Estado produtor de cacau do Brasil, e que ela não se aplica ao chocolate ao leite, que continua sendo de 25%. E é simplesmente o mais comum.
E há quem acredite que estão preocupados com o chocolate que a gente come.
Mas, Thiago, tem que ver o lado ruim de tudo? Não pode se alegrar?
Eu já adotei, há um bom tempo, uma atitude mais realista, mesmo sendo um eterno otimista. Acredito que tudo pode ser melhor, mas não deixo de olhar para a realidade.
E o que Laloux traz em seu ensaio é bálsamo pra mim: você não precisa ter a resposta, mas deve ser persistente com a sua pergunta.
Nas palavras dele:
O verdadeiro teste de liderança é a capacidade de se debruçar sobre uma questão difícil — sem nenhuma resposta à vista — até que as respostas comecem a surgir. Se você persistir o tempo suficiente, elas quase sempre aparecem.
Você sabe qual é a questão difícil que enfrenta? Em meio a tantos problemas e assuntos, você tem noção de onde pode atuar?
Eu atuo há quase 20 anos na gestão ágil. Meu desafio, muitas vezes, foi: como ser mais ágil? Como implantar o framework ou método X? Como vencer a burocracia? Acabar com o top-down, mudar a mentalidade da liderança, fazer com que os times entreguem valor e por aí vai.
Mas, ao mesmo tempo em que investi quase 20 anos nisso, esses 20 anos também me fizeram ir perdendo o sentido de tudo isso. Qual será que é a grande questão? O que realmente me move?
Vi no linkedin hoje cedo um questionamento sobre o que seria uma daily efetiva, “correta”, mas o fato é: de que adianta uma daily em que o time volta pra mesa desanimado? Em que as pessoas sofrem em silêncio? Em que nos alinhamos, entregamos, comemoramos, mas as pessoas ficam doentes?
O que eu busco no momento, sem sombra de dúvidas, é: “como fazer com que todo ambiente de trabalho seja prazeroso e que todos possam curtir o próprio trabalho?”
E, na verdade, acho que sempre busquei isso, mas hoje tenho muito mais clareza e certeza sobre esse objetivo.
Isso pode ter começado quando fui afastado por questões psiquiátricas ou quando assumi uma equipe totalmente júnior com um desafio extremamente sênior.
No primeiro caso, metas e prazos irreais, pressão por compromissos “escritos em pedra”, e madrugadas de trabalho estressante e privação do sono me fizeram “colar as placas”. O tico e teco simplesmente pediram arrego. E foram então dois anos de recuperação para voltar ao meu normal.
Hoje talvez chamariam de burnout.
E no segundo caso, que costumo citar vez ou outra, a equipe simplesmente não iria dar conta daquele desafio. Cinco brilhantes jovens em início de carreira, cheios de energia, disposição e sonhos, jogados em um cenário de guerra.
Esse foi meu primeiro vislumbre do meu real trabalho. Durante alguns meses que atuei nesse projeto, minha missão número um era cuidar dessas pessoas. Garantir que elas tivessem dias de prazer no trabalho, que aprendessem e que crescessem.
Eu não sei ao certo. Mas sei que isso é cada vez mais urgente. Esse olhar para o bem-estar das pessoas precisa ser focado, não podemos ignorar.
Logo após essa situação, acabei passando por uma mudança. Eu decidi sair daquela empresa, mas a situação do momento provavelmente já iria gerar minha saída cedo ou tarde.
Mas eu estava alerta. Nessa época eu já fazia minha gestão de risco e gerenciava alternativas.
A importância de um plano B
Outro importante bálsamo de Laloux em seu texto é a questão do plano B.
Se, como muitos líderes, você não tem um plano B — se a possibilidade de ser convidado a sair parece a morte do ego —, então, por definição, você não tem poder hoje.
Não há como você correr qualquer risco significativo. Mas, ao encontrar seu plano B, você de repente se torna bastante poderoso. A partir dessa posição de liberdade, você pode levantar as questões difíceis que realmente importam, construir visões que valham a pena seguir e assumir os riscos necessários para dar vida a essas visões.
Se tudo for interrompido, você não terá arrependimentos: terá trabalhado em algo importante e poderá colocar o plano B em prática.
Eu ainda acredito em tudo aquilo que ensino, o conteúdo trazido pelo Management 3.0, os ensinamentos da Agile People e a ciência do Reiss Motivation Profile®. Sei que todos eles ajudam muito a encontrar diferentes respostas e possibilidades para minha questão central.
E não tenho dúvidas de que tudo mudou para mim no dia em que perdi o receio de ser demitido e se intensificou quando decidi ser o dono do meu próprio passe.
Se nada disso der certo, ainda posso confiar na minha capacidade e flexibilidade, sempre gerenciando o risco para alinhar expectativas e realidade e gerindo meu happiness gap no dia a dia.
O que não posso perder de vista é a minha crença de que todos podem, e devem, trabalhar com prazer. Simon Sinek já dizia: não existe “linha de chegada”, mas a busca serve como o norte moral de alguém.
A aventura de uma vida
Se você deseja se tornar o tipo de líder com uma missão que dê sentido ao seu trabalho, por onde pode começar?
Laloux, nessa parte, nos convida a pensar e refletir. A dialogar e descobrir.
Algumas pessoas podem fazer isso por meio da meditação, conversando com grandes amigos ou familiares, ou tendo um mentor ou um coach.
Eu costumo me inspirar durante as aulas, compartilhando e ouvindo histórias, casos e experiências. Felizmente, na Agile People, costumamos reunir pessoas alinhadas a esse propósito, que sempre me trazem inspirações e novos pontos de partida.
Aqui estão três questionamentos sugeridos no texto que podem ser um início de reflexão:
Que práticas, embora hoje sejam padrão no meu setor, não me parecem totalmente corretas?
Se uma criança de seis anos viesse ver todos os aspectos do meu negócio, o que a surpreenderia ou a incomodaria? O que eu teria dificuldade em explicar?
O que eu poderia mudar na minha área para tornar a experiência verdadeiramente significativa (mesmo que pareça impossível hoje)? O que me deixaria realmente orgulhoso?
Mesmo que ainda não possa fazer nada para mudar isso, refletir e anotar pode ser um bom caminho para começar.
Eu aprendi, em minha carreira, que algumas coisas levam um certo tempo para acontecer. Elas ficam ali, sempre vivas, permeando pensamentos e ações e, quando você menos espera, algo acontece. Alguma resposta chega.
Quando buscamos um propósito dotado de poder real, embarcamos em uma aventura na qual apenas uma coisa é certa: agora, nos sentimos vivos.
Pode ser bem desconfortável perceber que estamos em um negócio ou situação que vai contra aquilo que acreditamos e que parecem ferir nossa integridade.
E é aí que podemos refletir mais.
Três perguntas sobre a licença de funcionamento da sua empresa
Por fim, Laloux traz mais três perguntas nada confortáveis para reflexão. Eu já as conhecia, mas é sempre bom relembrar e pensar.
O que aconteceria com as nossas vendas...
...se não fossem permitidos nem o marketing nem a publicidade?
...se os clientes tivessem que assistir a um vídeo de cinco minutos mostrando como nosso produto ou serviço é fabricado (e descartado)?
...se nossos preços de venda refletissem o custo total para a sociedade?
Eu, particularmente, gosto muito da segunda pergunta, a minha preferida. Quem já interagiu bastante comigo deve ter me ouvido falar de algo mais radical e que já é realidade: uma empresa em que todas as reuniões internas são gravadas e disponibilizadas na intranet, acessível a todos os funcionários.
Na sua empresa, isso tudo seria possível ou viável?
E não se desanime com essas reflexões. Elas podem fazer você se sentir impotente e para baixo. Mas esse é o convite a partir dessa reflexão:
Será que conseguimos acolher o desconforto que elas geram e sentir como, ao mesmo tempo, algo em nós pode estar grato por estarmos criando um espaço para resgatar nossa integridade?
Acolher esse desconforto é o primeiro passo.
Eu me esforço dia após dia para manter — ou resgatar — minha integridade. É um trabalho diário. E você? O que tem feito em prol da sua?
O texto completo de Frederic Laloux saiu na newsletter do Corporate Rebels que você pode conferir aqui.
